quinta-feira, 3 de junho de 2010

Coração de carnaval

carne igual?


Agora, de acordo: sim, gosto de sofrer. Rasgar meu coração em um milhão, quatrocentos e trinta e dois mil pedaços de poesia latejante. O impossível instante da brevidade me atrai como um animal faminto e alucinado em busca da presa. Gosto de saber que nunca vai ser, assim degusto com mais gosto. Só assim posso sentir com mais vigor meu prazer de ser fêmea. Me apetece sobreviver a mais uma desilusão e viver com mais uma saudade.



(Vida aí, minha vida...)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Drummond no meio do caminho

no asfalto estava escrita uma cidade


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Bandeira se esqueceu da nota de rodapé

para explicar que


quero o lirismo difícil e pungente dos bêbados


foi em memória


de Quincas Berro d´Água.



(cena da belíssima adaptação de Sergio Machado para a obra do Amado Jorge)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O mate da saudade

        Agora, só posso sorvar o mate da saudade. Antes, não precisava de mais nada além de ficar ali, ao lado dela, sentindo aquele doce amargo em quentes e lentos goles. A pequena cuia gostava de se revezar entre nós.
       Gostava muito de abraçá-la, beijá-la, sentir aquele cheiro de minha velhinha querida. Acho que eu era a única neta para quem ela se permitia carinhos assim. Também eu, assim: somente para minha avó meus carinhos físicos mais guardados se permitiam sair. Porque dela herdei esta casca protetora. Este coração de inverno quente. Este sertão-gaúcha que, quando menos espero, salta pelos meus poros. E pelos meus olhos.
       Nunca mais poderei comer a melhor ambrosia do mundo, nem fazer um interurbano para Guaíba no dia 15 de dezembro.
      Eu queria ter talento para, tal Cazuza, te escrever uma linda canção intitulada poema. Porém, tenho sofrido com meus anseios que, de tão grandes, não se conseguem traduzir em palavras. Assim, para quem se chamou Maria e resolveu ir-se em 8 de março, só posso dedicar a mais bela, triste e completa palavra do meu vocabulário: saudade.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Partidos porque eternos

Só se deixam partir os abraços que já foram eternos. Instantaneamente eternos. O abraço das almas, que se utilizam livremente do corpo físico para se envolverem. São aqueles abraços que, de tão eternos, sabem que estão condenados à ruptura. Por isso, são mais bonitos. Mais doídos. Mais gostosos. Saudosos. Desejados. E, por isso mesmo, partidos. Porque eternos.




(Depois de Almodóvar, Penélope e o estranho amor de Caetano – quem precisa de pastorterreirobanhodeáguaseteervas pra sessão do descarrego?).




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Agora, o verde maduro

         E se, junto à minha garrafinha com o mágico aroma vermelho de morangos, levasse um saquinho de conteúdo deliciosamente táctil: o interior de um figo maduro. E então, quando de uma noite enluaradamente quente, poderia eu tocá-lo com gosto, de fora pra dentro, suavemente veloz ou ferozmente suave. Até o fundo - figo.
        Do toque sentiria o cheiro e o gosto. Pois que não posso ver, só sentir. Ali, guardado, preservado - não vale ver. Sentir vale mais. Fecho os olhos e sinto. Só. Aí guardo mais. Sensação-memória. Aqui, serve mais do que a memória da retina.


sábado, 12 de dezembro de 2009

Alma em transe

Explode, explode, explode coração! Surrealmente, ela existe! Estrela que me guia pelo canto. Mágico. Sublime. Verdadeiro. Brasileiro. Expressão máxima de todos os sentidos da alma. É como a água: mata a minha sede. Toda. Me respira. Me alegra. Me agita. Excita. Tal como quando me chegaste, invadindo-me inteira, arrasando minhas barreiras e tocando onde ninguém mais, talvez nem eu mesma, possa chegar. Me revela. E descobre.


Verde, amarela, azul e branca. Vermelha. Bahia. Calor. Fervor. Amor...

A memória da retina e do coração me valem mais na alma. Assim, astro que vi de perto, pela linha tênue que separa a vida da vida. Permanecerá. E só engrandecerá.

Amanhã, seja você quem for. Seja o que você quiser. Hoje, minha. Hoje, tua.





Vivas ao dom de Maria Brasileira Bethania.





(após o show da turnê "Amor, festa, devoção" - Teatro Abril - São Paulo).